primeiro dia – hoje.
quando entra a “senhorinha”, do guinga, é que começo a escrever essas linhas tortas, incertas, mas embaladas pela canção. depois de horas andando em círculos, passando pelo escritório e desprezando o computador, lembrando-me da amiga que me sugeriu fazer um diário, a fim de que o tempo aqui não ficasse tão sufocado. antes de “senhorinha”, rodou também as “vozes d’áfrica”, batucadas no disco do caetano. era uma aula que, finalmente, surgia. não sei bem se um diário convencional me satisfaria, visto que os dias não têm muita novidade e, para engrossar o sufoco, andam cinzas e chuvosos. enfim... acordo um pouco melhor, em horário fora do habitual, depois de uma conversa longa, na noite anterior, com uma das quatro pessoas com quem gosto verdadeiramente de estar aqui em st. a conversa com l. seguiu até quase onze da noite, devo ter falado noventa por cento do tempo, despejando o final de semana que não foi exatamente animador nem edificante. nada. mas, acordo melhor, um pouco antes das dez. faço meu café-ritual, horas bebendo café e comendo pão, ora com manteiga, ora com geleia. depois, um mamão duro – muito diferente dos mamões de dois anos atrás, muito embora sejam os mesmo mamões – e festas na gata tunuka, a rádio francesa com notícias do mundo, treinando os meus ouvidos na língua estranha e sedutora. almoço com as amigas brasileiras, no mesmo lugar de sempre. como mais rápido do que o faço habitualmente, falamos de assuntos corriqueiros, comento que a noite de conversa me fez bem, recuso a sobremesa e bebo um café razoável. volto para casa com a chuva caindo, ouvindo o disco do marcelo camelo – e gosto muito – e ouço-o alto, para não me chatear com os abusos que falam na rua, mais particularmente dirigidos a mim, branca. um menino me bate com um cinto – ou sei lá o que – e eu reclamo, talvez em voz bem alta por causa da música também alta. era uma forma de comunicar: não me ouve, mas me sente. uma chamada da embaixada me tira do curso que havia traçado para o dia – fazer as compras da quinzena – e decido pela reunião lá. antes, assisto ao “zelig”, sem legendas, para reabituar os ouvidos com a língua que mais adoro depois do brasileiro. “zelig” é excelente, digo isso para a tunuka, não muito convencida, mas com certa parcialidade, porque gosto dos filmes de w.a. “zelig”, afinal, é bom. melhor do que “the purple rose of cairo”, porque, deste, não aceitei o final. é certo que se deve olhar o objeto artístico com alguma imparcialidade, contudo, este é meu mundo paralelo e eu mergulho fundo no meu sertão, que sou eu mesma. veredas. saio para a embaixada. tento ler emails. não consigo. falo com as pessoas que me convocaram. desculpo-me por não ter ido a um compromisso no sábado, era o mínimo que eu poderia fazer. falamos da semana da vinda dos escritores e da s. parecemos todos, enfim, animados. começo a ir a pé até o café onde estão as amigas brasileiras e um amigo oferece carona, melhorando o caminho, que ainda era grande. penso em como é bom me reconciliar com as pessoas, no entanto sei que a reconciliação é comigo mesma. como hambúrguer e tomo sorvete com calda de chocolate. volto para casa, festas na tunuka, música para dar um pouco mais alegria à casa séria, sinto falta da energia do m., digo isso para a gata, e volto ao início de tudo, na hora em que começo a pensar em escrever. agora escrevo, tunuka no colo, depois de passar muitos minutos atrás da geladeira, provavelmente por se ter magoado com a minha indiferença na frente do computador. mas ela é insistente, e me faz lembrar a alegria do m. se eu pudesse resumir as pessoas em uma palavra, eu diria que a. é minha paz. i. é uma rocha a ponto de desmanchar. l. é meu espelho. m. foi minha alegria. os de lá da américa latina são minha saudade. e se eu pensasse alguma vez e atribuir a mim mesma uma única palavra, eu não saberia qual usar. ainda não li hoje, mas já começo a me preparar para iniciar o “terra sonâmbula”, de mia couto. tunuka se ajeita entre as minhas pernas e já ronrona, pois sabe que é hora de ficar sozinha, com a casa toda pra ela, menos o quarto, que este eu não divido. já que o dia terminou, vou eu também terminar e seguir para a leitura noturna e o descanso que mereço. amanhã retomo as escritas do vozsaotome, anunciando o primeiro encontro das manhãs de quinta-feira. e vou me condicionar a escrever acerca das experiências que viverei no decorrer de outros, pelo menos, cinco encontros.
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