Passem de longe, bondes, ônibus, rios de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
(...)
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.
(Carlos Drummond de Andrade, A flor e a náusea)
Há algum tempo venho carregando na ponta do ouvido este poema de Drummond, sussurrado lentamente, palavra por palavra, letra a letra. Por um tempo, imaginei que era o fantasma das minhas Minas Gerais me aclarando o sentimento, enchendo-me de uma esperança fértil, visionária (sic). Depois, por outro tempo, imaginei que era mesmo o Carlos, acendendo um holofote sobre a flor que nasce no asfalto, flor que me recusei a ver. “Olha a flor, menina! Ela é feia, mas é uma flor.” Ainda mais tarde, e por algum tempo, lembrei-me de uma pessoa de quem gostava muito, que me falou da flor de lótus, que nasce no meio da lama, e é linda, imponente. Pensei que talvez a flor do Carlos não fosse a flor de lótus, porque a flor do Carlos não é assim tão bonita quanto a flor de lótus. “Já viu a flor de lótus?” Sim, eu a vi, numa tarde, fugindo da loucura da cidade, num jardim dentro doutro jardim, em pleno Rio de Janeiro (é verdade que o Rio de Janeiro é uma flor que nasceu no Brasil, e é lindo, isso é mesmo!) e fiquei parada observando a flor de lótus, grande, parecia um chuveirinho. Mas volto à flor do Carlos. Porque o poema martelava na cabeça, dia e noite, e o mesmo poema se escondeu de mim por uma semana no livro em que eu tinha certeza absoluta em que ele estava. Fugiu. Rosamente se escondeu de mim. Precisei mudar o ângulo do meu olhar, e, hoje, eis que o poema ressurge, lindo, e me liberta da náusea do dia inteiro, do mal-estar que a solidão causou no final de semana, me liberta da humanidade de desejar que tudo seja exatamente da forma como sinto as coisas. Nietzsche sim, ele sabia, humano, demasiado humano. Rosa também sabia, e o Grande sertão é o livro de todas as filosofias já feitas no mundo, o livro em que toda a língua portuguesa converge para continuar a criar a língua brasileira, língua de Rosa, língua de Ramos, de Drummond, minha língua. Mas, a flor? Estou convencida de que a cada dia que vivo, vivo mais profundamente as coisas, ao contrário de muitas pessoas que vão aos poucos endurecendo, e sofrendo menos. Vivo e preciso de beleza, mais do que preciso das pessoas. São Tomé é um lindo país. Lindíssimo. São Tomé e seus paradoxos é que formam a beleza de que falo. São Tomé me trouxe pessoas lindas de fora de São Tomé: uma professora amada, um antropólogo alemão, uma repórter carioca, uma professora-amiga com nome de beleza, alguns amigos perdidos por Minas, outros cariocas achados aqui. São Tomé me fez, longe do Brasil, amar o Brasil. São Tomé me fez perceber o quanto o Brasil está grande, e cresce, a despeito de toda crise e de toda ue ku boka. O Brasil, alvo de tanta língua tirana, deitado em berço esplêndido, sozinho lá na América do Sul, ficando grande. São Tomé desencantou para mim a língua de uma poetisa nascida deste útero. A flor no asfalto. A flor que brota do meio da dureza e finca as raízes na terra. A flor dolorosa, na qual é preciso passar a mão com calma. São Tomé me fez perder medos. Medo de voar e medo de solidão.
Hoje, dia da Proclamação da República, de 2011.
Hoje, dia da Proclamação da República, de 2011.
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