Todos conhecem o texto do Ivan Ângelo "Negócio de menino com menina". Ele está no livro didático mais adotado pelas escolas no Rio de Janeiro, o famoso "Português: linguagens", do famoso William Cereja. Precisei trabalhar com este texto numa turma de sexto ano (crianças que podem ter de 10 a 12 anos) e a sutileza das ilustrações me chamaram a atenção para uma coisa muito "comum" do pensamento da elite produtora de livros didáticos no Brasil: o menino preto é o menino pobre. Pois é, explico: o texto não faz referência à cor do menino que leva um passarinho na gaiola por uma estrada de chão, de pés no chão e blusa rasgada. Aliás, o menino está "vermelho" por causa do sol quente. Não me parece que um menino preto (ou o politicamente correto "negro") possa ficar vermelho como as pessoas de pele "mais clara". Enfim, claro, as crianças, numa das perguntas lançadas pelo maravilhoso livro, responderam que uma das coisas que revela a condição social e econômica do menino é o fato dele ser negro. Então, eu questionei isso, porque eu tenho uma espécie de cegueira seletiva: não havia reparado na ilustração. Descrevo em dois adjetivos: um menino todo rasgado, acuado... E eu me pergunto: a figura mais interessante e sensata e afetuosa e ética daquela história seria, paradoxalmente, um negro? Eu fico pensando como essas crianças lidarão com a alteridade no futuro... E eu me frustro com a mentalidade dos "formadores de opinião" dessa terra brasilis mestiça e ainda tão dividida... "Branco, se você soubesse o valor que o preto tem, tu tomava banho de piche, branco, e ficava preto também..."
PS.: pra piorar, não suporto a ideia de um passarinho preso, de qualquer animal preso...
***
Negócio de menino com menina, de Ivan Ângelo.
O menino, de uns dez anos, pés no chão, vinha andando pela estrada de terra da fazenda com a gaiola na mão. Sol forte de uma hora da tarde. A menina de uns nove anos ia de carro com o pai, novo dono da fazenda. Gente de São Paulo. Ela viu o passarinho na gaiola e pediu ao pai:
- Olha que lindo! Compra pra mim?
O homem parou o carro e chamou:
- Ô menino.
O menino voltou, chegou perto, carinha boa. Parou do lado da janela da menina. O homem:
- Este passarinho é pra vender?
- Não senhor.
O pai olhou para a filha com uma cara de deixa pra lá.
A filha pediu suave como se o pai tudo pudesse:
- Fala pra ele vender.
O pai, mais para atendê-la, apenas intermediário:
- Quanto você quer pelo passarinho?
- Não tou vendendo não senhor.
A menina ficou decepcionada e segredou:
- Ah, pai, compra.
Ela não considerava, ou não aprendera ainda, que negócio só se faz quando existe um vendedor e um comprador. No caso, faltava o vendedor.
Mas o pai era um homem de negócios, águia da Bolsa, acostumado a encorajar os mais hesitantes ou a virar a cabeça dos mais recalcitrantes:
- Dou dez mil.
- Não senhor.
- Vinte mil.
-Vendo não.
O homem meteu a mão no bolso, tirou o dinheiro, mostrou três notas, irritado.
- Trinta mil.
- Não tou vendendo, não, senhor.
O homem resmungou “que menino chato” e falou pra filha:
- Ela não quer vender. Paciência.
A filha, baixinho, indiferente às impossibilidades da transação:
- Mas eu queria. Olha que bonitinho.
O homem olhou a menina, a gaiola, a roupa encardida do menino, com um rasgo na manga, o rosto vermelho de sol.
- Deixa comigo.
Levantou-se, deu meia volta, foi até lá. A menina procurava intimidade com o passarinho, dedinho nas gretas da gaiola. O homem, maneiro, estudando o adversário:
- Qual é o nome deste passarinho?
- Ainda não botei nome nele, não. Peguei ele agora.
O homem, quase impaciente:
- Não perguntei se ele é batizado não, menino. É pintassilgo, é sábia, é o quê?
- Aaaah. É bico-de-lacre.
A menina, pela primeira vez, falou com o menino:
- Ele vai crescer?
O menino parou os olhos pretos nos olhos azuis.
- Cresce nada. Ele é assim mesmo, pequenininho.
O homem:
- Canta?
- Canta nada. Só faz chiar assim.
- Passarinho besta, hein?
- É. Não presta pra nada. É só bonito.
- Você pegou ele dentro da fazenda?
- É. Aí no mato.
- Essa fazenda é minha. Tudo que tem nela é meu.
O menino segurou com mais força a alça da gaiola, ajudou com a outra mão nas grades. O homem achou que estava na hora e falou já botando a mão na gaiola, dinheiro na outra mão.
- Dou quarenta mil! Toma aqui.
- Não senhor, muito obrigado.
O homem, meio mandão:
- Vende isso logo, menino. Não tá vendo que é pra menina?
- Não, não tou vendendo não.
- Cinquenta mil! Toma! - e puxou a gaiola.
Com cinquenta mil se comprava um saco de feijão, ou dois pares de sapatos, ou uma bicicleta velha.
O menino resistiu, segurando a gaiola, voz trêmula.
- Quero não senhor. Tou vendendo não.
- Não vende por quê, hein? Por quê?
O menino acuado, tentado explicar:
- É que eu demorei a manhã todinha pra pegar ele e tou com fome e com sede, e queria ter ele mais um pouquinho. Mostrar pra mamãe.
O homem voltou para o carro, nervoso. Bateu a porta, culpando a filha pelo aborrecimento.
O menino chegou pertinho da menina e falou baixo, para só ela ouvir:
- Amanhã eu dou ele pra você.
Ela sorriu e compreendeu.
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