domingo, 23 de agosto de 2009

A semana mais longa de todas as semanas de minha vida.

decidi: vou à livraria. preciso d'A varanda de Frangipani. mais que isso: preciso das varandas de mim mesma, de montar a minha varanda com flores na África que me espera negra, negras raízes, negra eu, buscando enraizar-me e conhecer-me. a semana demorou a acabar. ontem, sábado, o último dia, parecia um sem-fim de mar longínquo. pensei e figurei copacabana, mesmo aprisionada em casa, aprisionada por amores (i)reais, mesmo estando-me presa por vontade, tanto no trabalho quanto na ilusão que me acerca, e tem me consumido (ou carcomido) nos dias dessa semana mais longa de todas as semanas da minha vida. ouço Ella. a voz sofrente soa como piano em meus ouvidos. soa como a angústia profunda dos amantes à deriva. em que mares? golfo da guiné? mares saramaguianos? creio agora estar muito perto dos mares de Mia Couto. o Antes de nascer o mundo vibra aos meus pés. saco-o, dormentes os olhos, marejados também. fantasio cada personagem do livro. ah, o livro! os livros com os quais me envolvo docemente, terrivelmente. eu não posso viver sem as histórias dos meus livros. cada linha, cada palavra, cada metáfora, cada dor. tudo para mim é libertação. as palavras são minha libertação. e creio que as palavras dos meus amantes escritores me libertam mais que as minhas próprias. quantas vezes tive a certeza de que de minhas mãos não poderia sair linha que fosse de sentido vasto como as linhas que leio de meus amores amantes autores. e agora, a África. à África. o medo mesclado à delícia de conhecer terras novas, que, dizem, já estiveram ligadas à minha pátria-raiz. doerá ver o Rio se afastar de mim? doerá amar as pessoas a distância? talvez doa mais não ter quem amar a distância. e não ter o Rio para sentir saudade. e não pensar em cada centímetro de Laurinha tornando-se Laura. e de Gabriel tornando-se homenzito. e de minha família envelhecendo. jamais morrendo. não morreremos, me deus, não morreremos. eu sou a mulher que rompe as barreiras do próprio medo. eu desço os livros das estantes, leio cartas antigas, vejo fotografias. ajeito-as em uma caixinha, ponho-a sob a minha cama. escolho as canções da minha vida. leio e releio trechos dos livros-amantes. as frases que eu queria ter escrito. cada pedacinho de mim agora se prepara para se reconstruir em África. na África de meus antepassados. quanta delicadeza há nisso, não posso esperar para vislumbrar aquela ilhazinha se aproximar dos meus olhos, e ir se tornando uma ilha, e uma ilha com formas que, da janelinha do avião da tap, vão se tornando claras, e o mar que a envolve docemente, e acaricia aquelas margens, como a mim me acariciará o corpo. sei que no primeiro contato de meus pés com aquela terra ainda distante, sei, me transformarei em quem fui, e me deixarei ficar. e, nesta semana, a mais longa de todas as semanas da minha vida, eu vi o mar de Copacabana e senti saudade.

Um comentário:

Carla Mariana disse...

África???
Como assim?
É Sério?