Certa vez, ainda em condição de neófita (faz anos, na graduação), em uma defesa de mestrado, ouvi a orientadora dizer, delicadamente, depois de uma daquelas perguntas que se faz de muita maldade com o pobrezito que está tenso pra que dê tudo certo, à qual, claro, a mestranda não soube responder e foi só perceber a maliciazinha no finalzinho da defesa. Enfim, disse a orientadora: "ah, que boa é a ingenuidade!". Pego-me, agora, pensando o mesmo: que boa é a ingenuidade, especialmente quando se descobre a mesma depois de expurgar certos maus sentimentos. Palavras que ouvimos em comentariozinho muito maldosinho (no diminutivo mesmo) em um momento em que, se assimilássemos e tomássemos como nosso o tal feito ou a tal característica, jamais voltaríamos a ser quem somos.
Imagine-se dizer para uma criança: você não aprende mesmo isso; ou para uma pessoa em depressão: mate-se; ou para uma senhora que perde um filho: isso passa; ou para uma alma em transição: suas palavras são vazias em ideias. É um trauma absolutamente irreversível. Então, aqui age a entidade Ingenuidade, a postos para salvar essas alminhas incompreendidas, e a obnubilar os pensamentos, a ponto de essas alminhas não perceberem o que lhes está sendo verdadeiramente dito.
Ah, a delícia de ter um corpo e uma alma independentes um da outra. Só agora me dei conta do que é "ser" verborrágica, e não "estar" verborrágica. Sim, sim, eu volto ao mote, porque, muito embora seja rápida de pensamentos, eu tenho o dispositivo de segurança denominado A Ingenuidade. Imagine só se assumo para mim a condição daquela palavra feia à beça (fechemos com isso)? Conseguiria eu, a heroína moderna dessa história semgraçademais escrever uma linha que fosse após o terrível trauma?
Mas Saramago me salva a cada página, pois ele, deliciosamente, escreve infindas e prazenteiras palavras (algumas boas 5 páginas) para explicar uma questão de unidade de medida (estádio, milha e, algum século mais, finalmente, a légua). E finaliza da seguinte maneira as verborrágicas páginas n'a viagem do elefante - salomão:
"No fundo, será, como se num filme, desconhecido naquele século dezasseis, estivéssemos a colar legendas na nossa língua para suprir a ignorância ou um insuficiente conhecimento da língua falada pelos actores. Teremos portanto neste relato dois discursos paralelos que nunca se encontrarão, um, este, que poderemos seguir sem dificuldade, e outro que, a partir deste momento, entra no silêncio. Interessante solução." (Na página 38)
Shhhhhhhhhhh
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