Hoje eu escrevo aqui sob o ventilador e ao som de Gonzaguinha (Espere por mim morena...). O trabalho e o processo de adaptação tem me anestesiado um pouco a saudade. Não sei se por aqui me sinto muito perto de casa, por causa da língua (mas há os paradoxos, sobre os que já falei em email anterior), ou se porque ando às voltas com uma alergia no rosto, que trouxe do Rio, da ansiedade da viagem, ou, ainda, se a novidade do trabalho me tem tomado muito tempo, principalmente no que diz respeito à literatura africana.
Na verdade, eu não pensava que trabalharia com a literatura africana aqui, mas me deram a “cadeira”, e aceitei: eu gosto de me colocar assim, em desafios, e a primeira aula foi muito produtiva. Além de eu mesma ter aprendido muito estudando sozinha, os alunos muito me ensinaram. Não há pudores (não sei se uso bem a palavra... a memória linguística às vezes é ingrata) em se falar das questões da afirmação do homem negro aqui. Interessante como encontrei, no Brasil, resistência, de negros, ao discurso radical da “implantação” da voz negra na literatura por um viés racialista... e hoje já estamos tanto além dessas culturas/políticas afirmativas que nem creio (e nunca cri) na validade das mesmas existirem ainda hoje. Acho mesmo que tenho MUITO que aprender. Aqui não se fala disso, e não pelo fato óbvio de haver uma população majoritariamente negra, mas pelo fato de os negros estarem já ocupando os seus lugares, como qualquer um de nós, brancos, vermelhos, amarelos... e estarem, ao invés de políticas estáticas, envolvidos, ativamente, com sua terra sua cultura, sua voz, suas letras. É interessante como essas coisas são para mim: muitas vezes eu não sei se estou a falar com um negro, um mulato... eu estou preocupada em estar com “a gente” daqui. Quero, como “a diferente”, ouvi-los, aprendê-los, convivê-los. E, tenho uma sensação estranha de não parecer a diferente, entre os alunos no ISP, como eu própria me sinto... Apenas andando na rua falam francês comigo. Não me acham com cara de brasileira (e brasileiro tem “cara”?). Acho, sim, que temos “caras”.
São Tomé é uma ilha muito acolhedora, e sempre que olho para o horizonte, mesmo sabendo que aqui é pequeno, tenho uma sensação de lonjura... O horizonte superou o do Rio: aqui o mar é tão amplo... nem tenho palavras.
Hoje, especialmente, está muito quente. Em geral, o sol nos mata pela manhã, e à tarde vai arrefecendo. À noite, o tempo é fresco e o céu, quando está limpo, é uma imensidão, uma infinitude... Fiquei, ontem, ao entardecer e à noite, do lado de fora de casa olhando a lua que, infelizmente, some rapidinho. Eu vou procurar o mapa das constelações que se podem avistar por aqui. Ficar “considerando” nesta terra é uma delícia.
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Preciso falar dos pães: nunca comi pães tão deliciosos como os daqui. Se me deixam, passo o dia a beliscar uma broa (pão) de milho que fazem aqui e que, se a compramos fresca, quentinha, o cheiro fica por toda a casa... inebria! Também o café que se tem aqui é muito bom. Se no Brasil eu já tomava café demais, aqui, dei logo um jeito de adquirir a cafeteira italiana, que faz um espresso sem par. Penso nos quilinhos que vou ganhar por aqui.
Fui ao mercado hoje: o Mercado Municipal. E, realmente, pude estar frente a frente com o que é a pobreza daqui. Ao mesmo tempo em que é tudo MUITO caro, as pessoas têm rostos sofridos, cansados. Fiquei angustiada com esse passeio matinal. Mas, se há de ser assim... Aqui não tem inhame, mas uma coisa que se parece muito com ele, porém agora me foge o nome da coisa. Alho é muito caro, condimento de luxo (não estão em época de alho). O mamão é diferente, mas muito doce. Há tantos temperos no Mercado que não consegui comprar um sequer. É muito amplo o espaço, e como já disse, fiquei com uma sensação estranha naquele lugar. Ainda bem que a D. Delfina foi comigo, pois, palavras dela, há aqui muitos gatunos e podem me cobrar preços muito altos por eu ter acabado de chegar. Estou aprendendo a pechinchar.
Na verdade, eu não pensava que trabalharia com a literatura africana aqui, mas me deram a “cadeira”, e aceitei: eu gosto de me colocar assim, em desafios, e a primeira aula foi muito produtiva. Além de eu mesma ter aprendido muito estudando sozinha, os alunos muito me ensinaram. Não há pudores (não sei se uso bem a palavra... a memória linguística às vezes é ingrata) em se falar das questões da afirmação do homem negro aqui. Interessante como encontrei, no Brasil, resistência, de negros, ao discurso radical da “implantação” da voz negra na literatura por um viés racialista... e hoje já estamos tanto além dessas culturas/políticas afirmativas que nem creio (e nunca cri) na validade das mesmas existirem ainda hoje. Acho mesmo que tenho MUITO que aprender. Aqui não se fala disso, e não pelo fato óbvio de haver uma população majoritariamente negra, mas pelo fato de os negros estarem já ocupando os seus lugares, como qualquer um de nós, brancos, vermelhos, amarelos... e estarem, ao invés de políticas estáticas, envolvidos, ativamente, com sua terra sua cultura, sua voz, suas letras. É interessante como essas coisas são para mim: muitas vezes eu não sei se estou a falar com um negro, um mulato... eu estou preocupada em estar com “a gente” daqui. Quero, como “a diferente”, ouvi-los, aprendê-los, convivê-los. E, tenho uma sensação estranha de não parecer a diferente, entre os alunos no ISP, como eu própria me sinto... Apenas andando na rua falam francês comigo. Não me acham com cara de brasileira (e brasileiro tem “cara”?). Acho, sim, que temos “caras”.
São Tomé é uma ilha muito acolhedora, e sempre que olho para o horizonte, mesmo sabendo que aqui é pequeno, tenho uma sensação de lonjura... O horizonte superou o do Rio: aqui o mar é tão amplo... nem tenho palavras.
Hoje, especialmente, está muito quente. Em geral, o sol nos mata pela manhã, e à tarde vai arrefecendo. À noite, o tempo é fresco e o céu, quando está limpo, é uma imensidão, uma infinitude... Fiquei, ontem, ao entardecer e à noite, do lado de fora de casa olhando a lua que, infelizmente, some rapidinho. Eu vou procurar o mapa das constelações que se podem avistar por aqui. Ficar “considerando” nesta terra é uma delícia.
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Preciso falar dos pães: nunca comi pães tão deliciosos como os daqui. Se me deixam, passo o dia a beliscar uma broa (pão) de milho que fazem aqui e que, se a compramos fresca, quentinha, o cheiro fica por toda a casa... inebria! Também o café que se tem aqui é muito bom. Se no Brasil eu já tomava café demais, aqui, dei logo um jeito de adquirir a cafeteira italiana, que faz um espresso sem par. Penso nos quilinhos que vou ganhar por aqui.
Fui ao mercado hoje: o Mercado Municipal. E, realmente, pude estar frente a frente com o que é a pobreza daqui. Ao mesmo tempo em que é tudo MUITO caro, as pessoas têm rostos sofridos, cansados. Fiquei angustiada com esse passeio matinal. Mas, se há de ser assim... Aqui não tem inhame, mas uma coisa que se parece muito com ele, porém agora me foge o nome da coisa. Alho é muito caro, condimento de luxo (não estão em época de alho). O mamão é diferente, mas muito doce. Há tantos temperos no Mercado que não consegui comprar um sequer. É muito amplo o espaço, e como já disse, fiquei com uma sensação estranha naquele lugar. Ainda bem que a D. Delfina foi comigo, pois, palavras dela, há aqui muitos gatunos e podem me cobrar preços muito altos por eu ter acabado de chegar. Estou aprendendo a pechinchar.
No mais, a porta de casa fica aberta o dia inteiro (em princípio eu ficava incomodada, agora já me acostumei), os dias têm sido suaves, a saudade sempre aumenta, muito embora não esteja ainda tão evidente pelo que já mencionei logo no início, mas há uma acolhida que conforta minha alma e meu coração.
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