sábado, 6 de setembro de 2008

Daniel Lopes

Modo de fazer: uma banda em um.

Poucas são as vezes que temos a oportunidade de ver uma única pessoa – um violão e um i-pod – dando um show. E, em meio a tão poucas, uma surpresa: na casa de cultura Julieta de Serpa, Daniel Lopes mostrou o que há de mais criativo, sozinho - e vários - no palco.
Criatividade e bom-humor marcaram a "cena", com músicas próprias e outras, tiradas do fundo do baú, que muito têm a ver com aquela casa, que conjuga o novo e o clássico, e acolhe o compositor, que traduz, em suas letras, um pouco da angústia contemporânea, e nas suas melodias, a graça – tradicional – de lidar com ela. O que falar de alguém que transforma em beleza tudo o que toca?
Exploremos a polissemia da palavra tocar: tocar é tirar sons; fazer soar; tanger, mas também pôr a mão; apalpar, palpar. Daniel toca(s). Tira sons, e transforma o simples e o óbvio em uma quase-arte (que se pretende assim, sem altos vôos, mas vôos em céu limpo, sem acrobacias alucinantes, o que o faz sóbrio e elegante). E põe a mão em seus instrumentos, transformando-os em personagens do seu show.
A leveza e informalidade do show foram deliciosamente exploradas por Daniel, que nos deixou a todos muito confortáveis e também nos fez protagonistas da peça criada por ele. A sensação foi de estar diante de uma peça de teatro, com boa música e momentos interessantíssimos: o Thriller foi aos poucos sendo construído, como um cenário que se vai montando, e o todo (o resultado) foi divertido, competente, uma leitura performática da música de Michael Jackson.

Fez-se a cena!

Fragmentos, talvez seja, também, uma boa forma de traduzi-lo - o artista - , já que nos apresenta pedaços de modernidade, feixes românticos, excertos do espírito contemporâneo, influências diversas e muito talento.
Uma boa receita para se fazer uma banda.

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